Uma estranha necessidade de punir

February 8, 2007 at 12:08 pm Leave a comment

Que necessidade terá, na realidade, um país pobre, atrasado, corrupto, infinitamente pouco escrupuloso em tudo, enfim, tão cheio de contradições como Portugal, a crispar-se  desta forma quando se fala em aborto e no livre arbítrio das mulheres sobre essa questão?
Como é que é possível que ande tanta gente empenhada em obrigar adolescentes de treze e quatorze anos ou mulheres deficientes (ver Público, 27 de Janeiro, reportagem de Sofia Branco sobre uma mulher que vive numa cadeira de rodas e que tendo engravidado aos quarenta e um anos se viu obrigada, depois de tentar recorrer aos hospitais portugueses, a ir abortar a Espanha) a terem filhos quando é pacificamente constatado que não estão de forma alguma habilitadas a serem mães?  Porque razão alguém pretende obrigar uma mulher que «não quer» pôr um filho no mundo a fazê-lo, exercendo sobre ela violência, argumentando da forma mais irresponsável e estúpida, com chantagens e demonstrações demagógicas e aberrantes em nome do «respeito à vida»?
Qual respeito à vida?
Se em primeiro lugar não a respeitam nem a ela, nem à sua vida, quando a julgam, quando a obrigam, quando dela suspeitam, quando dizem que não pode ela, sozinha, ter livre arbítrio sobre o seu corpo?
Talvez seja a manifestação de uma estranha e antiga necessidade de «punir» e de  «controlar», ainda, numa última tentativa, o incontrolável. Ou seja, a própria mulher. Que nos últimos cinquenta anos e nos países ocidentais conseguiu tornar-se moral e politicamente adulta.
Todas as mulheres de cultura ocidental, nascidas durante os últimos cinquenta anos, não poderão, em caso algum, comparar a sua vida à das suas mães, praticamente consideradas cidadãs de segunda, mesmo vivendo em democracias. Basta para isso lembrar a luta, cujos termos nos são hoje quase incompreensíveis de tão absurdos, mas basta-nos lembrar do que foi preciso para convencer as sociedades democráticas dos nossos pais que o voto das mulheres era, em si, admissível.
Esta «campanha do sim» será vista no futuro como igualmente abstrusa. As mulheres têm todos os direitos naquilo que diz respeito ao seu corpo, à sua maneira de viver, às suas escolhas politicas.
As mulheres têm direito a ser ajudadas pelo Estado e pelos Serviços de Saúde, e não a ser perseguidas, sequestradas e violentadas no seu corpo e espírito pelos mesmos.
Ficar grávida não implica ter um filho. Ficar grávida não significa que seja por nossa (ir)responsabilidade posta no mundo uma «pessoa», quando não nos sentimos aptas a isso. Quando a nossa ética diz não, que não podemos e não devemos fazer isso.
Um dia, nos anos cinquenta, uma mulher, uma negra norte americana, Rose Parks, pôs fim às leis raciais no seu país ao recusar ficar de pé no autocarro quando havia lugares disponíveis, mas esses lugares estavam reservados a brancos.
Foi o início de um movimento cívico que viria a alterar a história.
Foi também, certamente, quando algumas boas almas andaram, pela última vez, a discutir a «natureza» do homem negro e do homem branco, quer dizer, se seria razoável que negros e brancos partilhassem os mesmos espaços nos transportes públicos.
Muitas pessoas participaram nesta discussão usando de argumentos tão obtusos e manipuladores como aqueles que agora, em Portugal, estão a ser usados por quem é contra o aborto. Com o tempo toda essa retórica (a do não) se cobrirá de pó e cairá no esquecimento mais absoluto.
Devemos dizer «não» à manipulação. Devemos defender-nos de quem nos quer afrontar quando sabemos que estamos certas na nossas escolhas, que estamos certas e que somos capazes e livres nas nossa escolhas.
Os movimentos dos que lutam pelo Sim (existem cinco organizações pelo Sim contra vinte e uma pelo Não) são movimentos que traduzem uma espécie de «instinto de sobrevivência» que guiou sempre as sociedades avançadas. Porque é difícil argumentar contra a agitação, o delírio e a manipulação. Mas é possível. É possível sentarmo-nos, se a nossa consciência nos diz que podemos fazê-lo (ou até que devemos fazê-lo) quando um revisor nos manda, baseado certamente numa lei, seja ela laica ou religiosa, viajar de pé. Se assim pensamos é altura de nos sentarmos.

Mafalda Ivo Cruz

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Hoje e amanhã: Bora lá encher as salas!

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