Morrer e calar

February 8, 2007 at 11:33 pm 4 comments

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Teresa sobreviveu alguns minutos com o útero perfurado. Ester aguentou três semanas ligada às máquinas. Uma adolescente queimou o estômago com 64 comprimidos. Histórias de vítimas do aborto ilegal.

«A minha filha diz que lhe matei a mãe.» Henrique baixa os olhos, afundados numas olheiras profundas e carregadas, e faz uma pausa. Passa alguns segundos em silêncio, sem coragem para levantar a cabeça. Nota-se-lhe a angústia, o desgosto, a raiva. A culpa. Durante aqueles breves momentos, perde-se na recordação mais dolorosa da sua vida. De queixo apoiado no peito, regressa ao dia de todos os pesadelos: 5 de Março de 1998.
Henrique Couto, emigrado em França há um ano, tinha engravidado a mulher, Maria Teresa, seis semanas antes, durante uma visita a casa, em Vilar Formoso. A medicação para a tuberculose que ela tomava anulou o efeito da pílula. A preparar uma vida no estrangeiro, o casal teve de tomar uma decisão, para não hipotecar o seu futuro e o dos seus três filhos – o que Henrique ganhava na construção civil era já apertado para cinco, quanto mais para seis. Bateram à porta do Hospital da Guarda, a cerca de 40 quilómetros de sua casa, mas a resposta foi previsível: a lei não deixa.
Eram oito da noite quando Henrique e Teresa entraram em casa de uma enfermeira, na Guarda, que alguém lhes indicou. Com dificuldade, conseguiram reunir 300 dos 350 euros que a parteira pedia. Tudo ficaria resolvido em 20 minutos. Mal chegaram, o marido saiu, a pedido da enfermeira, e foi encharcar-se em bicas, num café ao lado.
Surgiu uma ambulância. Henrique correu para casa da enfermeira e encontrou Teresa deitada no chão do corredor, de olhos abertos. Morreu minutos depois, a caminho do hospital, com o útero perfurado e hemorragias vaginais e abdominais. Tinha 37 anos. Deixou um filho com 5 meses, outro com 15 anos e uma filha com 14.
Foi o início de um inferno. Nos anos seguintes, a filha responsabilizou Henrique pela tragédia, deixou de lhe falar e saiu de casa. Os pais de Maria Teresa adoeceram e acabaram por morrer, «de desgosto». E o marido – o viúvo – passou a afogar a dor em álcool.

causas camufladas
Henrique levanta ligeiramente a cabeça. «Fiquei com a vida destruída. Andei feito um bandalho. Adormecia todos os dias no sofá, bêbado.» A parteira foi condenada (homicídio por negligência) a dois anos e meio de pena suspensa. Mas o marido de Teresa, hoje com 42 anos, está longe de culpar apenas a enfermeira. «Se houvesse clínicas em condições, não tinha acontecido o que aconteceu.» Jura que se vai sentir traído se o Não vencer o referendo e indigna-se com os partidários da actual lei. «Essas pessoas deviam passar pelo que passei».
Teresa morreu a três meses do primeiro referendo para despenalizar o aborto. Não podia esperar. De qualquer forma, de nada lhe serviria. A lei manteve-se, até agora.
Ninguém sabe quantas mulheres morreram desde então, vítimas de aborto clandestino. Os movimentos pelo Sim falam em 13 mortes na última década, mas esses números são impossíveis de confirmar oficialmente.
Os dados governamentais indicam apenas que o aborto inseguro é responsável por cerca de 19% da mortalidade materna, que vitima 5 mulheres por cada 100 mil nados-vivos. Ou seja, morrerá, todos anos, uma portuguesa na sequência de um aborto ilegal. É a primeira causa de morte materna, na adolescência, e a segunda causa, na idade adulta, sendo ainda um dos principais motivos de complicações em gravidezes posteriores.
No entanto, o verdadeiro número de vítimas está ocultado pelas diferentes classificações nas certidões de óbito, que se limitam a referir septicemias (infecções generalizadas) e doenças tão insuspeitas como broncopneumonias. «As pessoas são enterradas com outros diagnósticos», garante José Pinto da Costa, médico-legista e ex-director do Instituto de Medicina Legal do Porto. «Tudo isto é clandestino e não interessa que se investigue se foi por causa de um aborto ou não», acusa este médico, favorável à despenalização.
O medo obriga à ignorância. Mas, às vezes, a sensação de injustiça é mais forte – e as mortes tornam-se públicas.

Dois dias terríveis
Junho de 2000, aldeia de Nelas de Cepões, concelho de Viseu. Maria Ester estava grávida de oito semanas. Os biscates do marido, mas obras e nos campos, mal davam para sustentar uma família com duas filhas. Outra criança. naquela casa sem água, luz ou esgotos, mais semelhante a uma barraca de tijolos, podia fazer a diferença entre terem comida na mesa e passarem fome.
Havia só uma solução, acreditou o casal: recorrer aos serviços de Palmira, uma mulher da freguesia, nos seus sessenta e muitos anos, que, julgava-se por lá, tinha trabalhado num hospital francês (na verdade, só terminara a 3ª classe). Ester já o tinha feito uma vez, dois anos antes. Saíra da cozinha da «parteira» com dores e a sangrar, mas sobrevivera. E não conhecia alternativa.
António Gomes, o marido, levou-a novamente à «gira», assim baptizada pela aldeia, a recordar a sua beleza de juventude. Deu-lhe metade dos 200 euros que ela pedia e esperou à porta. Lembra que a viu ir buscar um «pauzinho de videira», para puxar o feto do corpo de Ester. Ouviu-a recomendar, à saída, comprimidos para as dores.
Maria Ester passou dois dias terríveis, com hemorragias agudas e a chorar de for. António queria levá-la ao médico, mas ela recusava-se. Finalmente, deixou-se convencer – o pavor da morte ultrapassou o pavor da lei. Paula Viana, a médica que a acompanhou, no Hospital de São Teutónio, em Viseu, lembra que Ester chegou chegou aos Cuidados Intensivos já ventilada e sedada, com deficiências respiratórias profundas e sinais de disfunção hepática. «Não se sabe se foi uma infecção devido ao uso de instrumentos não-esterelizados, no aborto, ou se as substâncias que lhe deram a tomar lhe provocaram um choque anafiláctico (reacção alérgica extrema)», comenta a especialista.
Resistiu três semanas, ligada às máquinas. Morreu sem voltar a recuperar a consciência. Tinha 32 anos. Deixou dias filhas, com 11 e 14 anos.

Que sirva de exemplo
Em tribunal, provou-se que Ester abortou naquelas condições, com um «pauzinho» introduzido no útero. No entanto, uma deficiente autópsia não permitiu fazer uma ligação que, sem margem para qualquer dúvida, garantisse uma causa-efeito (o Tribunal da Relação de Coimbra acusou os serviços de Medicina Legal de «incúria”»).
António, 40 anos, refez a vida como pôde. Voltou a juntar-se e teve mais uma filha. Mas a nova família não lhe consegue dissipar da memória aquele quente 20 de Julho, em que conduziu a mulher à casa de Palmira. Ou as imagens de Maria Ester a sofrer, ao seu lado, durante 48 horas. Ou o desespero de um referendo, dois anos antes, que podia ter evitado tudo. «Tinha-a levado ao hospital para fazer o aborto, claro, se pudesse. Mas não podia. E ninguém me venha dizer que deixa de se fazer abortos neste país, porque é proibido», desabafa António. «Agora, só espero que ela, ao menos, sirva de exemplo.»
É um curto consolo para Liliana, 18 anos, a filha mais nova de Ester. «Se não fosse esta lei, a minha mãe ainda estaria viva», acredita, com um sorriso triste.
João Paulo Malta, obstetra da Plataforma Não Obrigada, devida muito. «Ninguém me demonstra que diminuiu o número de mortes se legalizarmos o aborto. Não desaparece a possibilidade de as mulheres morrerem em abortos legais.»
A Organização Mundial de Saúde diz o contrário: seria possível reduzir em 90% estas mortes, bastando para isso que os países alterassem as «leis restritivas» e proporcionassem, nos seus serviços de saúde, abortos seguros.

A morte aos 14 anos
O panorama do aborto clandestino alterou-se muito, nos últimos anos, explica Maria José Alves, obstetra da Maternidade Alfredo da Costa (MAC) e dirigente do movimento Médicos pela Escolha. «Felizmente, já não morrem tantas mulheres com perfurações do útero.» Desde 1998, as portuguesas recorrem menos às curiosas de «vão de escada», seduzidas pela publicidade das clínicas espanholas. Descobriram, também, o misoprostol, princípio activo de comprimidos para a úlcera, com propriedades abortivas, que passaram a ser vendidos no mercado negro – em alguns bairros de Lisboa é possível comprar um comprimido por 25 euros, embora em sites na Internet se cheguem a pedir 400 por três pastilhas. É um negócio próspero, pois uma caixa de 20 unidades custa 19 euros na farmácia…
«As mulheres da classe média e média-alta vão a Espanha, onde conseguem um aborto seguro e acessível (entre 350 e 500 euros). Mas as mais desfavorecidas viraram-se para os comprimidos», diz Maria José Alves. São essas mulheres mais pobres, ou muito jovens, que a obstetra atenda na MAC, todos os dias. «Chegam, geralmente, com abortos incompletos (retidos), depois de terem tomado os comprimidos em casa. Vê, assustadas, cheias de dores, com vómitos, diarreia, arrepios de frio». Segundo dados da Direcção-Geral de Saúde, o número de internamentos por abortos retidos disparou. na última década. Em 2005, foram internadas 3216 mulheres com este tipo de problema. Mais de 9600 entraram nos hospitais com complicações pós-aborto – embora nestes números estejam incluídos outros casos não decorrentes do universo clandestino, como os abortos espontâneos.
As situações clínicas mais complexas actualmente dizem respeito ao abuso de misoprostol. Muitas mulheres «carregam» nas doses, tentando compensar o estado mas avançado de gravidez – mas, após as 10 ou 12 semanas, muito dificilmente um aborto clínico resulta. «É usual chegarem aqui mulheres que tomaram 30 comprimidos», conta Manual Hermida, director do serviço de Obstetrícia do Hospital Garcia de Orta, em Almada. Essa sobredosagem provoca lesões externas no sistema digestivo, por vezes com necrose do intestino e infecções muito graves. Tão graves que já não têm solução, quando chegam às urgências de um hospital.
Foi o que aconteceu a uma adolescente que deu entrada no Hospital de Santa Maria, no final de 2005, depois de ter tomado 65 comprimidos de misoprostol. Estava grávida de 20 semanas. Não havia volta a dar às «extensas lesões vasculares do esófago e do estômago». Morreu, esvaindo-se em sangue, numa amálgama de dores. Tinha 14 anos.

Seis vítimas por hora
Em 2002, outra mulher faleceu no serviço de Obstetrícia de Santa Maria, com uma infecção generalizada, depois de ter entrado nas urgências com complicações pós-aborto. Apesar de todas as tentativas da VISÃO, ninguém, no hospital, foi autorizado a dar mais informações sobre estes casos. Os seus nomes e as razões do seu desespero permanecerão escondidos, nos arquivos hospitalares.
Essas mulheres são, em Portugal, duplamente vítimas da clandestinidade. A nível global, o assunto está bem documentado. Sabe-se que o aborto ilegal leva à morte de 68 mil mulheres por ano, em todo o mundo. Seis vítimas por cada hora que passa. A informação foi avançada, na semana passada, no estudo Aborto Sem Condições de Segurança: a Pandemia Evitável, publicado pela revista científica inglesa The Lancet. Como diz o obstetra Mahmoud Fathalla, perito das Nações Unidas, «estas mulheres não estão a morrer por causa de doenças intratáveis, mas sim por causa da sociedade que ainda não decidiu se vale a pena salvar as suas vidas».
A sociedade portuguesa é chamada a decidir sobre a despenalização do aborto, e a sua prática em estabelecimento de saúde legalmente autorizado, no próximo domingo, 11 de Fevereiro. Henrique Couto, viúvo de Maria Teresa, empenha-se na discussão – não quer que outras famílias passem pela mesma dor: «Se a lei não mudar, mais mulheres vão morrer na mesma situação que a Teresa. Isto tem de parar por aqui».

Luís Ribeiro e Patrícia Fonseca, Visão , 8 de Fevereiro de 2007

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4 Comments Add your own

  • 1. kooka  |  February 9, 2007 at 1:31 am

    Já me tinham falado neste artigo. Impressionante de facto…
    Obrigada por disponibilizarem aqui.

    Reply
  • 2. Sonia Areia  |  February 9, 2007 at 9:08 am

    Impressionante…..Não consegui conter as lágrimas ..
    Obrigado pela coragem em testemunhar .

    Reply
  • 3. Cristina Ferreira  |  February 9, 2007 at 11:09 am

    Estou sem palavras!!!
    Tiveram muita coragem em contar os vossos casos, por voçes, por nós mulheres e por todas as que também já morrem, votem sim no proximo dia 11.
    Obrigado.

    Reply
  • […] Artigo publicado na Visão sobre mulheres mortas em consequência de abortos. […]

    Reply

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