Qual Fradique Mendes, qual quê

February 3, 2007 at 4:01 pm Leave a comment

«Tenho recebido algumas cartas simpáticas, com especial incidência para remetentes cujo apelido tem dupla consoante. Deixo aqui uma delas, que é mais ou menos igual às outras, e a minha resposta. Corrigi a ortografia, alguma pontuação e outras coisas. Os raciocínios é que deixei como estavam:
“Esta semana vimos que o Ricardo Araújo Pereira optou por dar a cara pelos ‘Jovens Pelo Sim’. Nem parecia, pela sua expressão, que se tratava de um assunto tão sério como o aborto. Os meus filhos gostam muito de ver o vosso programa e, quando viram o Ricardo na TV, perguntaram de que se tratava. A minha filha mais velha encarregou-se de explicar aos irmãos: ‘Para o Ricardo, uma mãe deve poder matar o seu filho na barriga só porque sim. Não precisa de ter um motivo. Nem lhe damos hipótese de ser ajudada ou aconselhada.’
É muito difícil explicar às crianças, para quem o mundo ainda é belo, que existem pessoas que, ao ver uma mulher grávida pobre ou com dificuldades, em vez de a ajudarem a arranjar emprego, casa ou apoio, queiram oferecer-lhe a morte do seu filho.
Os meus filhos mais pequenos apressaram-se a dizer: ‘Mãe, já não queremos ver o Gato Fedorento!’
Para vocês pode ser indiferente que no meio de tantos fãs tenham menos 5. Pode ser indiferente que, em tantas televisões, uma já não esteja ligada à hora do vosso programa. Pode até ser indiferente que tenham desiludido cinco crianças.
Mas eu sou mãe delas e tinha de vos deixar o recado que me pediram…
O meu filho N. (6 anos) pediu explicitamente que vos dissesse: ‘Vocês são uns totós.’
L., F., E., R., N., M. e H.”

Caros L., F., E., R., N., M. e H.,
Devo dizer que eu próprio não sabia que estava lá a fazer isso que a sua filha mais velha explicou aos irmãos. Confesso que não conheço nenhuma mulher que tenha feito um aborto só porque sim, sem um motivo. Mas a verdade é que eu não conheço mulheres atrasadas mentais. Talvez seja por isso. Todas as mulheres que conheço que abortaram tinham razões fortes para o fazer, e eu não creio que sejam criminosas. Sobretudo, não sou ninguém para as julgar. Por isso, não gostaria de as ver na cadeia. Mas admito que a sua filha mais velha tenha uma experiência de vida mais vasta e conheça mulheres que abortaram sem motivo, ou por diversão.
Sabe, eu estava convencido de que o debate sobre o aborto opunha dois grupos moralmente iguais. Porém, descubro que agora há um que beneficia de uma superioridade moral em relação ao outro. Ao que parece, a discussão em torno do referendo joga-se entre as pessoas que são a favor do homicídio e as que são contra. Digamos que é um modo extremamente sofisticado de ver o mundo. Afinal, é tudo tão fácil: assassinos para um lado, pessoas decentes para o outro. E eu, desgraçadamente, encontro-me do lado dos assassinos. Nem sei como não me prenderam, naquele dia.
Assim, sendo, constato que a escolha da família F. está feita: dia 11, é preciso votar não, para que as assassinas continuem a ser presas. Mas, permita-me um reparo. Só isso, não basta. A actual lei pune as mulheres com pena até três anos. Trata-se de uma pena demasiado leve para uma assassina – sobretudo para uma assassina que comete um homicídio premeditado. Se fazer um aborto é equivalente a matar, a pena deve ser elevada para o máximo previsto na lei nesses casos: 25 anos. Mais: o homicídio já é permitido. A lei que hoje vigora deixa que a mulher mate o seu filho na barriga se tiver sido violada, se houver ghrave perigo para a sua saúde física e psíquica e nos casos de malformação do nascituro. Ou seja, em vez de a ajudarem a arranjar emprego, casa ou apoio para o filho gravemente deformado ou produto de uma violação, querem oferecer-lhe a morte do filho. Isto é o que se passa hoje. Por isso, não basta à família F. votar não à nova lei. É preciso que se batam por mudar a lei actual de modo a que as assassinas que abortam tenham apanhem penas de prisão até 25 anos. Caso contrário, os pais do N. estarão a pactuar objectivamente com o actual estado de coisas. E o N. terá toda a razão para lhes chamar totós. Por acaso, a mim também me apetece.»

Ricardo Araújo Pereira, Visão, 1 de Fevereiro de 2007

Entry filed under: Artigos, Artigos do Sim. Tags: .

O Professor que se cuide… Sabias que…

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Passa a mensagem!

EM AGENDA
JANTAR 1º ANIVERSÁRIO - 2ª, 11/2, 19h30 Cervejaria Trindade, Lisboa

Cartaz 2 - Movimento Jovens Pelo Sim

SITE DO MOVIMENTO JOVENS PELO SIM
WWW.JOVENSPELOSIM.ORG

CONTRIBUI PARA O NOSSO MOVIMENTO

INSCREVE-TE NA MAILING LIST DE INFORMAÇÕES

EM ANTENA & ARTISTAS PELO SIM

Estatísticas

  • 69,567 hits

Feeds

SIM no Flickr

Vota SIM à despenalização. Get yours at bighugelabs.com/flickr

%d bloggers like this: