Mães pelo Sim

January 31, 2007 at 9:36 pm 1 comment

Vou votar SIM no referendo do próximo dia 11 de Fevereiro. Votei da mesma forma há 9 anos, mas hoje faço-o com mais certezas. A diferença, de então para cá, é que agora sou mãe. 
O meu filho veio sem ser esperado. O meu primeiro pensamento, ao olhar para as riscas cor-de-rosa, não foi de felicidade imensa, foi de culpa, por achar que não tinha criado as melhores condições possíveis para trazer uma criança à nossa vida. Porque ser mãe é isso, um compromisso para a vida. Muda-nos, muda a nossa forma de pensar, de estar, de ver o mundo e os outros. Ser mãe tem consequências enormes, em tudo, na gestão de tempo e de dinheiro, na relação com as outras pessoas, no trabalho. A escala de prioridades altera-se, as escolhas passam a ter de ser mais ponderadas, porque as consequências não são só para nós.
Ser mãe não é fácil. Gerar um filho e pari-lo implica  mudanças enormes no corpo e na cabeça de uma mulher. Obriga a que ela se reconstrua enquanto pessoa.
Conheço algumas mulheres que abortaram. E não foram as pobres coitadas de quem se costuma falar. Foram apenas mulheres que não se sentiram capazes, por várias razões, de assumir, naquele momento das suas vidas, a gigantesca tarefa que é criar e educar um ser humano. Não sei se, no lugar de cada uma delas, teria tomado a mesma decisão. Gosto de acreditar que seria diferente, mas não sei. E, acima de tudo, sinto que não posso julgá-las. Essa certeza chegou-me com a maternidade, com o conhecimento de que tudo isto é demasiado complexo e demasiado difícil para ser imposto.
O aborto já existe. Toda esta discussão nem sequer é um problema real para a maioria das mulheres da classe média, como eu, que têm habitualmente dinheiro suficiente para a viagem a Espanha ou, melhor ainda, um médico amigo na clínica do local onde moram. A criminalização do aborto é um problema para as mulheres mais pobres e para as mais jovens, a quem a pobreza e a falta de informação roubam a liberdade de escolha. E que cometem, tantas vezes, actos desesperados que põem as suas vidas em risco.
A despenalização do aborto permitirá, se trabalharmos nesse sentido, a redução do número de abortos realizados e o combate ao aborto clandestino, nos consultórios e nos vãos de escada, e ao aborto caseiro, com comprimidos ilegais. A despenalização do aborto permitirá que as mulheres que abortarem legalmente sejam, depois, encaminhadas para consultas de planeamento familiar, para que não tenham que repetir uma experiência que nunca é fácil. A despenalização do aborto permitirá também mostrar outros caminhos a todas as mulheres que não tenham a certeza da sua decisão. Dar-lhes apoio, aconselhamento. Permitirá devolver a dignidade às mulheres e impedir a vergonha que têm sido os julgamentos dos últimos anos.
Sim, devemos apoiar a maternidade e a paternidade. Devemos dar tudo o que for necessário para que qualquer mulher que queira ter o seu filho o possa fazer. Devemos criar condições para que as pessoas tenham mais filhos, todos os que desejarem. Se me perguntarem, sugiro menos discursos e mais abono de família, mais creches sem custos exorbitantes e horários de trabalho compatíveis com a vida familiar. Mas isso nada tem a ver com a despenalização do aborto.
A despenalização do aborto é só isso. O fim de uma pena de prisão para ma escolha da mulher (e é óbvio que a escolha é sempre, em última instância, dela), quando o faça até determinado prazo. Não é um incentivo público ao aborto. É o respeito do Estado por uma decisão pessoal, numa matéria em que não há consenso e em que as crenças de cada um têm um peso enorme.
O meu filho veio sem ser esperado. Veio numa fase de inconstância e incerteza na nossa vida. Mas foi uma escolha. Foi desejado, sonhado, amado quando ainda não era uma pessoa. Teve a acolhê-lo colo e sorrisos. Será sempre colocado em primeiro lugar. Todos os meninos do mundo deviam ter o direito de nascer assim.
 
Mariana Canotilho, 27 anos.
Mãe do P., (quase, quase) 2 anos.

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Mães (e pais) pelo Sim Factos

1 Comment Add your own

  • 1. Cláudio Soares da Veiga  |  February 1, 2007 at 1:28 am

    Trazer filhos ao mundo, no sec xxi, sem serem esperados, planeados, pensados e preparados é quase tão cruel e irresponsável, como condenar uma mulher à prisão, por tirar a vida a um ser que tanto ia amar, adorar, respeitar e admirar a sua mãe.

    Reply

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