«Síndrome de stress traumático pós-aborto», ou ficção oportunista?

January 29, 2007 at 2:04 pm Leave a comment

Paulo Henrique Figueiredo, responsável pelo Serviço de Psicologia Clínica do Hospital Psiquiátrico do Lorvão, desmente, com base em evidências científicas, o Presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental. Adriano Vaz Serra terá afirmado que muitas das mulheres que abortam «apresentam sintomas compatíveis com o diagnóstico clínico de stress pós-traumático», citando como referência um vago «estudo efectuado nos Estados Unidos em 2004».
Paulo Henrique Figueiredo contrapõe que «aquilo a que alguns chamam de “síndrome de stress traumático pós-aborto” não existe cientificamente, é uma invenção propositada», negada por inúmeros estudos de prestigiados especialistas.
Vale a pena citar o parágrafo final deste texto: «Poderíamos questionar o Sr. Prof. Dr. Adriano Vaz Serra acerca da evidência de stress pós-traumático nas mulheres que abortam clandestinamente em “clínicas” de vão-de-escada, ou das que são submetidas a julgamento. Também acerca de síndromes depressivos arrastados em mulheres que cuidam dos filhos não planeados em condições miseráveis, da gravidez indesejada como um forte preditor da depressão pós-parto, e das perturbações no desenvolvimento psicossocial em parte significativo das crianças não desejadas. Ainda, acerca da saúde psicológica da assertiva auto-determinação das pessoas que decidem do momento em que se sentem com condições para serem pais. E da conveniência de avaliação e seguimento psicoterapêutico preventivo das mulheres vulneráveis, que a clandestinidade não permite.»


texto integral:

Quando não se diz tudo o que se sabe: do aborto e da psicopatologia

Sabemos da epistemologia de K. Popper e de T. Kuhn que a ciência não é neutra, pela simples razão de que o observador nunca o é. Mas também é verdade que a evolução do conhecimento, do que sabemos de nós e do mundo, tem sido um combate constante contra os paradigmas aprioristicamente assumidos, irrefutáveis verdades que, de Galileu a Einstein, têm sido desconfirmadas pelo esforço da imparcialidade.
Vem isto a propósito das «verdades» proferidas catedraticamente pelo sr. Presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental a propósito das sequelas psicopatológicas da interrupção voluntária da gravidez, referendável no próximo dia 11 de Fevereiro. Em momento algum afirmando a dissociação das suas atitudes públicas do seu estatuto institucional, o sr. Prof. Dr. Adriano Vaz Serra terá afirmado (segundo a comunicação social, não desmentida pelo próprio até ao momento) que parte significativa das mulheres que abortam apresentam sintomas compatíveis com o diagnóstico clínico de stress pós-traumático, sendo que muitas mais evidenciam sinais parcelares do citado síndrome e, ainda, que tal patologia poderia conduzir a comportamentos suicidários. Como fundamentação para tão conclusivas assumpções, o seu autor cita como referência «um estudo efectuado nos Estados Unidos em 2004».
A perturbação de stress pós-traumático surgiu na nosologia psicopatológica na sequência da observação dos distúrbios apresentados pelos soldados Americanos que tinham combatido na guerra do Vietname, nomeadamente na classificação proposta pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) em 1980. Anteriormente, já desde a Guerra Civil Americana tinham sido observadas as perturbações emocionais decorrentes da exposição a cenários de ameaça à vida, cimentadas com observações científicas durante a I e II Guerras Mundiais, denominando-se como «neurose de guerra», «fadiga de batalha» e shell shock, este interpretado como consequência do estrondo do rebentamento de granadas. O conceito, alargado a outros contextos de vida, postula a experienciação de fortes emoções (medo, horror, sentimento de desprotecção) no contexto da confrontação da pessoa com um acontecimento envolvendo uma séria ameaça à vida ou à integridade física. Caracteriza-se pela evidência de uma constelação de sintomas, nomeadamente a involuntária e persistente re-experienciação do acontecimento traumático através de sonhos recorrentes, memórias expressivas e pormenorizadas, imagens intrusivas e flashbacks (revivência do fenómeno, comportando-se a pessoa como se o acontecimento traumático estivesse de novo a suceder). A pessoa tende a evitar todos os estímulos que possam estar associados ao sucedido, como determinados locais e pessoas, programas de televisão, etc. Em vão, luta para afastar mentalmente as memórias do trauma; furta-se a abordar o sucedido em pormenor, ao mesmo tempo que rumina acerca dos «porquês» de tal lhe ter acontecido e das formas de o poder ter evitado. É dominante um estado de contínua activação, com hipervigilância, problemas de sono, irritabilidade, isolamento social, sentimentos de desvinculação nas relações interpessoais, sensação de embotamento emocional, dificuldade de concentração e respostas exageradas de medo. Muito frequentemente há comorbilidade com quadros do espectro ansiosos e depressivo, bem como abuso de álcool e/ou outras drogas.
Em nenhum momento da evolução do conhecimento científico em psicopatologia a efectuação voluntária de uma interrupção da gravidez foi reconhecida como detonadora de um quadro clínico de stress pós-traumático. Tal etiologia não consta em nenhuma classificação sindromática como factor determinante, nem na citada classificação da APA (e sucedâneas) nem na ordenação proposta pela Organização Mundial de Saúde (Classificação Internacional de Doenças, 10ª versão). Não está reconhecido pelas mais importantes entidades internacionais, como a Associação Americana de Psiquiatria ou a Associação Americana de Psicologia. Aquilo a que alguns chamam de «síndrome de stress traumático pós-aborto» não existe cientificamente, é uma invenção propositada.
Não conhecemos o citado estudo «efectuado nos Estados Unidos em 2004». Mas conhecemos muitos estudos longitudinais conduzidos com rigorosas metodologias de investigação que afirmam exactamente o contrário: a probabilidade de ocorrência de sequelas psicopatológicas em mulheres que voluntariamente abortaram é «minúscula numa perspectiva de saúde pública» (parafraseando E. Koop, um intelectualmente honesto investigador norte-americano que, investido pelo então Presidente Ronald Reagan para realizar um estudo acerca deste tema – com óbvias expectativas … –, teve a coragem de não mistificar a realidade). A grande maioria da investigação neste domínio tem concluído, ao contrário, que a esmagadora maioria das mulheres que voluntariamente abortam mantêm a sua saúde mental, experienciando até uma sensação de alívio contrastante com o seu estado psicológico prévio, sendo transitórias eventuais emoções negativas – ao contrário dos casos das mulheres que, querendo ter filhos, perderam a sua gravidez. Ainda, as conclusões apontam para que os casos de evidência psicopatológica pós-aborto voluntário (nomeadamente dos foros depressivo e ansioso) estão associados com perturbações psicológicas prévias ou com vulnerabilidades específicas, podendo eclodir por um numeroso espectro de acontecimentos de vida. Obviamente, o aborto é um factor de stress – como o é, também, uma gravidez indesejada, e muitos outros factos da nossa vida. Mas as reacções psicológicas daí decorrentes são interpretáveis no quadro dos recursos individuais de lidar com esses acontecimentos, não num modelo psicopatológico determinista.
Poderíamos citar não um mas numerosos estudos que conduzem a estas conclusões. Como um conduzido em Inglaterra sob a égide do prestigiado Royal College of Obstetricians and Gynaecologists que implicou o seguimento durante 11 anos de mais de 13000 mulheres com gravidezes não desejadas e que não encontrou qualquer diferença significativa na saúde psicológica entre as mulheres que terminaram a gravidez e as que a levaram até ao final.
Mas o que nos levou a escrever este texto é a nossa indignação a propósito da mistificação levada a cabo por alguém que, não demarcando (legítimas) opiniões próprias das suas funções institucionais, envieza a informação, confundindo deliberadamente o discurso científico segundo interesses ideológicos pessoais. Abordando e tomando como conclusivo apenas uma parte dos dados da investigação acerca da realidade de um tema tão complexo como é o processamento emocional da mulher que recorre, por contingências da sua vida, à interrupção voluntária da gravidez, ao não afirmar (no mínimo) que se trata de um tema controverso, o sr. presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental prestou um péssimo serviço à credibilidade da instituição a que preside.
Poderíamos questionar o Sr. Prof. Dr. Adriano Vaz Serra acerca da evidência de stress pós-traumático nas mulheres que abortam clandestinamente em «clínicas» de vão-de-escada, ou das que são submetidas a julgamento. Também acerca de síndromes depressivos arrastados em mulheres que cuidam dos filhos não planeados em condições miseráveis, da gravidez indesejada como um forte preditor da depressão pós-parto, e das perturbações no desenvolvimento psicossocial em parte significativa das crianças não desejadas. Ainda, acerca da saúde psicológica da assertiva auto-determinação das pessoas que decidem do momento em que se sentem com condições para serem pais. E da conveniência de avaliação e seguimento psicoterapêutico preventivo das mulheres vulneráveis, que a clandestinidade não permite.
Mas adivinhamos que estes temas não são objecto de estudos científicos «conduzidos nos Estados Unidos em 2004». Simplesmente porque já constituem uma conquista civilizacional.

Paulo Henrique Figueiredo
Psicólogo Clínico no Hospital Psiquiátrico do Lorvão
Mestre em Psicologia Clínica Cognitivo-Comportamental pela Universidade de Coimbra

BI nº 4235955, emitido pelo AI de Coimbra em 16/06/2000

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Radar Despenalização do aborto – uma tendência mundial

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