O Sim visto pelo budismo

January 22, 2007 at 3:20 am 3 comments

≪O Buda é a própria vida…≫
Daisaku Ikeda

Tendo em conta o enorme número e diversidade de ensinamentos e escolas budistas que actualmente existem, é importante referir um dos princípios que define a atitude própria de Buda: ser-se igualmente responsável quer pelos pensamentos, como pelas palavras e acções.
Segundo o Budismo de Nichiren Daishonin (monge budista do séc. XVI que estabeleceu o ensino e prática do budismo baseando-se no Sutra de Lótus e que propaga a sua fé, levando aos seus discípulos a crença de que é possível atingir a budicidade ou nirvana nesta vida) todas as pessoas possuem a natureza de Buda. A budicidade enquanto suprema condição de vida existe como potencial inerente ao ser humano. Neste sentido, quaisquer que seja o nosso karma ou acções, a natureza de Buda é inerente à própria vida e tem tanto poder e influência sobre nós como a própria ignorância fundamental que nos impede de manifestarmos essa mesma natureza.
Pessoalmente, considero que se as condições em que nasci não fossem por alguma razão, propícias a uma existência condigna, confiaria à minha mãe o poder de, pela sua vontade, interromper o processo da sua gravidez e minha gestação.
Julgo que qualquer mulher ou indivíduo deve ter plenos poderes sobre o seu corpo, permitindo-se aprender e desenvolver-se como pessoa, respondendo pelos seus actos e comprendendo os efeitos dos mesmos. Só assim poderemos como budas compreender a verdadeira natureza da vida em toda a sua profundidade.
Imagino não me ter sido concedida a possibilidade de passar pelo sofrimento de nascer ou de ter reencarnado na minha presente existência… Não consigo. Numa perspectiva de filosofia budista, vida e morte são realidades que estão intrínsecamente ligadas através de uma relação de causa e efeito e ≪eu sou por existir≫. A minha ignorância fundamental leva-me a que tome esse acto de nascer como necessário, inevitável, adquirido por um direito que não vos sei explicar… ≪Nem Yin nem Yang, nem o sol nem a lua, nem mesmo nenhum estado ou condição de vida como o inferno ou a budicidade, estão livres do nascimento e da morte≫.
A interrupção da gravidez, enquanto voluntária, não poderá deixar de ser vista como uma desistência e, por colocar, assim, questões muito delicadas e complexas sobre a forma como encaramos a vida, deve ser resultado de não restar qualquer alternativa ou esperança.
Não concordo com a penalização da interrupção da gravidez. Sem qualquer tipo de sentimentalismo e procurando ser o mais objectiva possível, sem me abstrair do princípio de respeito pela vida, julgo que é demasiado simplista decretar-se que no decurso de uma gravidez uma mulher seja obrigada a desenvolver uma gravidez, mesmo que existam indícios de que a concepção não se realizará em condições mínimamente toleráveis ou seguras.
Para além do mais, acho que uma mulher neste contexto deve exercer livremente o direito de expressar a sua vontade e de agir de acordo com a mesma. A sua maioridade residirá justamente no facto de não ser de nenhuma forma coagida nem a conceber, nem a interromper a gravidez. Se considerar que o sistema deve funcionar para proteger o cidadão, uma mulher deve ter, antes de mais, todo o apoio necessário para que possa em consciência tomar uma decisão que lhe permita transformar o seu karma e aproveitar as dificuldades porque passa como um marco que lhe permita estabelecer uma relação clara entre si e as circunstâncias que a sua vida atravessa.

Catarina Clemente, Lisboa

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  • 1. yjt  |  January 22, 2007 at 2:44 pm

    Devemos contextualizar-nos na nossa sociedade quando referimos um exemplo…não me parece que este argumento possa ser considerado válido…será o mesmo que considerar-mos a mutilaçao genital uma coisa normal e não reprovatória somente porque em diversos países africanos é uma práctica corrente. Independentemente da minha opinião ser ou não favorável ao aborto este exemplo não me parece práctico na nossa sociedade…muito menos quando falamos do budismo do séc.16…senão também poderemos dar o fabuloso exemplo da igrja queimar pessoas na via pública e matar mães e filhos de relações proibidas entre pessoas do poder naquele tempo…nomeadamente do clero…se eles aprovavam isso na altura porque razão devemos nós ou não basear-nos nisso? É pouco inteligente.
    Respeito a opinião de toda a gente mas este exemplo chega a ser absurdo. Obrigado e não vejam isto de defender opiniões como questões partidárias e muito menos encarem isto de uma forma extremista associada normalmente a seitas. Sejam inteligentes.

    Reply
  • 2. Vera  |  January 22, 2007 at 3:50 pm

    O budismo, quando uma criança chega aos 3 meses de idade passa a ter um ano de vida (9 meses de gestação + 3 meses desde que nasceu). Ou seja, para o budismo, a vida começa no momento da concepção. O que têm vocês a dizer sobre isto?

    Reply
  • 3. Catarina  |  February 2, 2007 at 12:41 am

    Seita: Opinião que se distingue de um corpo de doutrina e que é seguida por muitos.
    (cf. Novo Dicionário Lello da Língua Portuguesa, 1999)

    Não deve ser nova esta definição. Gostaria de apelar à tolerância, para que não se persista em queimar “bruxas” em haste pública.

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