Da confiança nas pessoas

January 22, 2007 at 4:42 pm 1 comment

1. O aborto não é uma questão religiosa. Há quem queira transformá-lo assim, por conveniência de convicções ou de má fé de argumentário. Mas, como católico, sinto que me querem encurralar num espaço ideológico uniformizado e acrítico, sem perceber que a Igreja deve antes confiar nos seus fiéis e que deve levar a sério a adultez moral de todas e todos.

2. Sobre este debate já tive oportunidade de escrever um texto [http://cibertulia.blogspot.com/2006/12/interrupo-voluntria-do-dilogo_21.html], com amigos, a partir da nossa condição de católicos, mas procurando questionar não apenas os que estão dentro, partindo para fora. Sem querer copiar o texto, posso no entanto sintetizar algumas das suas ideias-chave e acrescentar mais algumas reflexões, que são aquelas que continuam a marcar a minha participação neste debate e referendo.

3. O facto de defender a despenalização do aborto (é isso que está em causa) não significa que não seja pela vida. Só que a interrupção de uma gravidez não é desejável por ninguém, o recurso ao aborto não pode ser encarado como algo simplesmente leviano e fácil. Cada caso é um caso, mas por todos os casos perpassa um conflito interior enorme. Pensar o contrário é não confiar nas pessoas, é achar que o aborto vai explodir como se banalizasse um novo método contraceptivo.

4. A liberalização do aborto já existe: chama-se vão de escada, uma economia clandestina (traduzidas em centenas de euros) que desgraça mais do que ajuda, sem condições clínicas e higiénicas. O que se pretende é acabar com esta liberalização forçada, tornar clinicamente seguro um acto que não deve ser pago com a cadeia, como prevê a actual lei. Mais: em lado nenhum, a despenalização contribuiu (ou contribuirá) para o aumento exponencial e deplorável do número de abortos, como afirma alguns sectores do não.

5. Neste debate, há quem entenda que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não pode servir de apoio a actos clínicos, como o aborto, porque o dinheiro de todos (os contribuintes, mais exactamente, que não é o mesmo que dizer que é ≪o dinheiro de todos) não deve servir para pactuar com comportamentos de risco (como se os obesos, os fumadores, os dependentes, não pudessem mais ser tratados num sistema ≪clinicamente puro). O SNS será sempre mais barato que a actual economia clandestina paralela ou do que a ida-apenas-para-quem-pode a Badajoz e Madrid. O SNS deve servir para os que não têm possibilidades de atravessar a fronteira, para estes não mais usarem um qualquer vão de escada.

6. Nesta defesa da vida do não há sempre um carácter absoluto que não encontra paralelo em mais nenhum campo da vida. Muitos que agora dizem defender esta vida, desdenham dela em situações concretas de todos os dias: a pobreza extrema é tolerada como ≪inevitável, a pena de morte ≪eventualmente aceitável, o racismo e a xenofobia é discurso aceite e propagandeado. Mesmo os católicos são pouco afirmativos nos combates por outras políticas da vida como as do emprego, do ambiente, da habitação ou da segurança social.

7. A defesa da vida, neste caso do aborto, deve sempre ser formulada no plural. Estão em questão as vidas de, pelo menos, três pessoas e não apenas a de uma. Por isso, quando se procura estabelecer uma hierarquia de valores e de princípios, ela nem sempre é fácil ou mesmo clara e não será, seguramente, única e universal. Nem o argumento de que a vida do feto é a mais vulnerável e indefesa das que se jogam na possibilidade de uma interrupção voluntária da gravidez pode ser invocado de forma categórica e sem quaisquer dúvidas.

8. A invocação do direito da mulher a decidir sobre o seu corpo (≪a barriga é minha) é um argumento que, isoladamente, corre o risco de reproduzir de uma outra forma a tradicional atitude de desresponsabilização de grande parte dos homens perante as dificuldades com que se confrontam as mulheres na maternidade e no cuidado de uma nova vida.

9. Devemos cuidar de defender uma outra confiança e responsabilização dos adultos, na sexualidade, no prazer, no corpo. Manter um discurso, como faz por exemplo o Episcopado ou a Igreja institucional, de ataque à contracepção artificial fecha todas as alternativas, salvo a da castidade sacrificial. É um discurso que não contribui, de modo algum, para a defesa de uma intervenção prioritariamente preventiva, em que ao Estado fosse exigível um sistemático e eficaz serviço de aconselhamento e assistência no domínio do planeamento familiar e da vida sexual.

10. O recurso ao aborto é sempre, em última análise, motivo de um grave dilema moral. E é nessas circunstâncias de extrema dificuldade que achamos ter mais sentido a confiança na capacidade de discernimento de todos os seres humanos, em consciência, sobre os caminhos da vida em abundância (para os crentes, querida por Deus) para todos e para todas.

Miguel Marujo, Lisboa

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  • 1. Sérgio Almeida  |  January 24, 2007 at 11:27 pm

    Caro Miguel Marujo:
    Ler o inicio deste post fez-me pensar que tornar a questão do aborto como uma questão religiosa pode ser vantajosa até para os defensores do SIM: basta pensar nos ataques constantes que Igreja Católica sofre diariamente, as acusações de ser retrogada, e por aí fora. Ou seja, há quem queira transformar o SIM ao aborto num NÃO à Igreja Católica. E isto chama-se desespero.
    Depois vem o argumento de que o aborto é o último recurso, que me parece despropositado, uma vez que eu acho que a mulher grávida, se pensarmos bem, só tem duas opções: abortar ou deixar o bebé crescer.
    A seguir justificar a despenalização do aborto como modo de combater os abortos clandestinos parece-me ser um pouco utópico – essas clínicas vão sempre existir porque há quem queira que a sua situação seja clandestina!
    Legalizar o aborto como meio de cortar o rendimento das clinicas ilegais, é repugnante.
    É que isto se torna moda, crimes que sejam demasiado frequentes e com dificuldade em controlar, poderão vir a ser despenalizados.
    Quanto ao SNS, a única crítica é se eles não conseguem dar conta do recado actualmente, pior será se lhes aumentarem o trabalho – mas este argumento dos imposto como sendo algo a favor do Não é, no mínimo ridículo!
    Quanto à defesa da vida, parece-me que meteu os “pés pelas mãos”: há que distinguir a “vida” como direito de existir (e esse é, legalmente, absoluto) da vida como sinónimo de “qualidade de vida”.
    Se quisermos apontar as dificuldades da vida, condições sociais, etc, como modo legítimo de abortar, então algo está mal: porquê só até às 10 semanas? Porque não em qualquer altura da gravidez? Porque não depois do nascimento?
    Ou então, será que este é apenas o 1º passo na escala até a despenalização total?
    Eu tenho 2 filhos e assisti à 1ª ecografia de ambos (feitas cerca das 8 semanas) e um dos momentos mais emocionantes é o ouvir do coração a bater!
    Quererem tratar um ser vivo como um apêndice é chocante!
    Se querem lutar, lutem por o que está correcto: informem as pessoas dos métodos de contracepção, insira-se a educação sexual nas escolas, lute-se por uma dignidade social de todos, exijam dos governantes que governem tendo em vista o bem comum, há muitas coisas que se podem fazer.
    Revoltem-se, movimentem-se, ajam!
    Eu sei que são coisas que implicam um investimento futuro, passar por muitos problemas, etc, mas resolve o mal na sua origem.
    Deixem-se de soluções instantâneas que apenas mascaram os problemas reais.

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