Uma questão nada simplista

January 12, 2007 at 4:48 pm 3 comments

Sim ao aborto. Não ao aborto. A questão é posta de uma maneira tão simplista que não deixa transparecer realmente o que está
em causa. Também eu não sou a favor do aborto! Mas sou contra a mulher ser julgada e condenada por tomar uma decisão, que primeiro que tudo diz respeito a ela. Tento compreender os argumentos que levam ao «não» mas quanto mais penso no assunto menos sentido me fazem. Se o objectivo é salvaguardar a vida de um ser humano, então esse para mim é mais um argumento a favor da despenalização do aborto.
Todos os dias, por razões profissionais, contacto directamente com demasiadas crianças que nasceram, mas que por incapacidade parental, dificuldades económicas ou por tantas outras razões nunca foram amadas nem desejadas. A ausência de alguém que nos ame incondicionalmente nos primeiros tempos de vida e o crescer vazio de afecto é uma constante em todas elas. Não vejo estas mães e pais que negligenciam, agridem e por vezes torturam física e emocionalmente os próprios filhos serem julgadas ou condenadas, então porque é que uma mulher que por não ter condições, (físicas, emocionais ou sociais) decide não colocar uma criança ao mundo é penalizada pela sociedade? A culpabilidade e todo o tumulto emocional que vive uma mulher que voluntariamente interrompe a gravidez é doloroso e deixa sequelas de diferente ordem. Ela penaliza-se e julga-se a ela própria, tudo o que não precisa da comunidade é um fomentar e inflacionar dessa culpabilidade.
Se não for aprovada a despenalização do aborto, aqueles que podem continuarão a deslocar-se a locais onde a interrupção voluntária da gravidez é permitida e a ter o acompanhamento devido. Aqueles que não podem vão permanecer sem alguém com quem falar sobre o assunto antes e depois da tomada de decisão. Vão continuar a recorrer a locais sem condições ou a tomar comportamentos de risco para evitar o nascimento, ou então, a trazer mais uma criança ao mundo, muitas vezes para crescer sem saber o que é o amor e o ser desejada…

Sónia Andrade, Lisboa

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  • 1. Pedro  |  January 14, 2007 at 10:43 pm

    Gostava de contrapôr certos argumentos aqui abordados referentes ao sim no referendo.
    Sou a favor do não porque entendo que existe uma diversidade de meios anticoncepcionais de eficácio comprovada, que a situação de gravidez (desejada ou não, mas sobretudo a não desejada) é consideravelmente evitável.
    Existe muito pouca desculpa, para não afirmar que não existe nenhuma, para uma gravidez indesejada. No entanto, é frequente isso acontecer. Por isso considero, que a aposta deve se centrar na promoção da saúde reprodutiva e do planeamento familiar e deste modo, a alteração à lei é um falso problema.
    Quanto ao outro aspecto, de as mulheres terem o acompanhamento merecido, aquando desta prática, preocupa-me o facto de se estar a afirmar que vai ser o sector privado, o responsável por esta prestação de cuidados… Então, não se corre o risco de pessoas sem rendimentos para recorrer ao privado se sujeitarem a fazer abortos clandestinos?

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  • 2. Leonor Silveira  |  January 15, 2007 at 2:09 am

    Um dos argumento de quem quer continuar a penalizar a IVG, é que as mulheres em vez de recorrerem ao aborto devem ser apoiadas a prosseguir a gravidez em condições adequadas e dignas.

    Com o fim do aborto clandestino provavelmente mais mulheres seriam acompanhadas e algumas possivelmente encaminhadas e incentivadas a prosseguir a gravidez, outras a optar com justo direito a interromper a gravidez.

    Como apoiar e incentivar os prosseguimentos da gravidez?? Se ninguém conhece essas mulheres que clandestinamente recorrem ao aborto sabe-se lá onde e como!!!

    Quem não conhece as escolas onde não há educação sexual, onde não há métodos contraceptivos para distribuir aos jovens, ou os centros de saúde onde as dificuldades de acesso ainda são muitas e a funcionalidade ainda deixa muito a desejar, pode concerteza fazer muitos juízos de valor.

    Quem não conhece os bairros sociais ou não é sensível à misera realidade em que muita gente vive, facilmente julga, sente ou deturpa a verdade.

    Todas as mulheres deveriam ter o mesmo direito básico de liberdade, ricas, pobres, remediadas… Não existe nenhum método contraceptivo 100% seguro, e existem razões pessoais que não devem ser julgadas, trata-se de um direito, de uma decisão e ninguém tem o direito de julgar uma mulher que deseja interromper uma gravidez. Tal como ninguém deve interferir com a decisão de uma mulher que não deseje optar pela IVG.

    Com que direito nos é vedado um direito à opção em consciência??? Com que direito é impedido o apoio às mulheres que interropem uma gravidez porque não têm outra alternativa??? Com o aborto clandestino, não há apoios, há mentira, há hipocrisia e uma sociedade assente numa lei medieval.

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  • 3. Helena  |  January 26, 2007 at 12:23 pm

    “Sou a favor do não porque entendo que existe uma diversidade de meios anticoncepcionais de eficácio comprovada, que a situação de gravidez (desejada ou não, mas sobretudo a não desejada) é consideravelmente evitável.”
    É uma razão pouco válida para ser a favor do não, porque é verdade que existem variados métodos anticoncepcionais, mas também é verdade que nenhum é 100% eficaz, logo nem sempre depende só de nós. A pilula, por exemplo, não pode ser usada por todas as mulheres (por questões de saúde) e um preservativo pode romper-se. Ter um filho deveria ser algo bem planeado mas, se isso não acontecer, pelo menos desejado!

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